Bem, já que esse é o intuito do blog vai aí um texto que já tem algum tempo.
------------------
Noite. Nas ruas tocava Pixinguinha. Tocava grande, com um eco e uma amplitude únicos, e a cidade se sentia velha. Suas ruas vazias faziam dela algo uniforme e só. Solitária. A música se mantinha agora mais baixa, mas persistente, e ela [unida ao cheiro do calor abafado
fazia da cidade um corpo estranho, benevolente, acolhedor e melancólico. Os lugares queriam ser o que não eram ou o que já haviam sido.
As esquinas tinham saudade das vozes roucas e dramáticas, se estremeciam lembrando dos amores furtivos narrados naquelas canções.
Os viadutos sentiam nesse momento um vento frio, e pediam aos céus que ele trouxesse os bêbados e vagabundos com a viola debaixo do braço.
*
A cidade é nesse instante um observador atento, e percebe que há cachorros que só os são por ser noite. Durante o dia talvez sejam comerciantes, taxistas, cobradores, padres ou até banqueiros, mas a noite os obriga a ser cachorros: matusquelas, sarnentos. São eles parentes da cidade, e ela lembra, então, de quando os cachorros noturnos sempre eram acompanhados por uma poesia maltrapilha [e por um poeta ainda mais maltrapilho.
E se ela se levantasse?
A cidade quer se levantar. Seu corpo formiga. Suas pernas tremem.
A cidade quer sair, conhecer o mundo. Ela quer caminhar no tempo e nas palavras.
A cidade quer escrever.
[e agora sinto que ela usou minhas mãos.
*
A cidade permanecia lá, imóvel, colada na noite e nos mendigos e nos cachorros que cedem seus corpos para acalentar a cidade.
Fosse por vontade dela e a noite nunca acabaria, mas ela tem que se alimentar. E se alimenta do caos. É isso que mantém a cidade viva. O dia serve então para trazer o caos que alimentará a cidade para que ela possa viver outra noite, onde ela só [acompanhada do eco da música
sonha e imagina e lembra e viaja, e esses sonhos, imaginações, lembranças e viagens alimentam a cidade, e a mantém viva para o dia e o caos.
A cidade.
------------------
Noite. Nas ruas tocava Pixinguinha. Tocava grande, com um eco e uma amplitude únicos, e a cidade se sentia velha. Suas ruas vazias faziam dela algo uniforme e só. Solitária. A música se mantinha agora mais baixa, mas persistente, e ela [unida ao cheiro do calor abafado
fazia da cidade um corpo estranho, benevolente, acolhedor e melancólico. Os lugares queriam ser o que não eram ou o que já haviam sido.
As esquinas tinham saudade das vozes roucas e dramáticas, se estremeciam lembrando dos amores furtivos narrados naquelas canções.
Os viadutos sentiam nesse momento um vento frio, e pediam aos céus que ele trouxesse os bêbados e vagabundos com a viola debaixo do braço.
*
A cidade é nesse instante um observador atento, e percebe que há cachorros que só os são por ser noite. Durante o dia talvez sejam comerciantes, taxistas, cobradores, padres ou até banqueiros, mas a noite os obriga a ser cachorros: matusquelas, sarnentos. São eles parentes da cidade, e ela lembra, então, de quando os cachorros noturnos sempre eram acompanhados por uma poesia maltrapilha [e por um poeta ainda mais maltrapilho.
E se ela se levantasse?
A cidade quer se levantar. Seu corpo formiga. Suas pernas tremem.
A cidade quer sair, conhecer o mundo. Ela quer caminhar no tempo e nas palavras.
A cidade quer escrever.
[e agora sinto que ela usou minhas mãos.
*
A cidade permanecia lá, imóvel, colada na noite e nos mendigos e nos cachorros que cedem seus corpos para acalentar a cidade.
Fosse por vontade dela e a noite nunca acabaria, mas ela tem que se alimentar. E se alimenta do caos. É isso que mantém a cidade viva. O dia serve então para trazer o caos que alimentará a cidade para que ela possa viver outra noite, onde ela só [acompanhada do eco da música
sonha e imagina e lembra e viaja, e esses sonhos, imaginações, lembranças e viagens alimentam a cidade, e a mantém viva para o dia e o caos.
A cidade.
