São Paulo que sou
Dia após dia acordo nessa cidade, dias cansado e em outros bem vivo, mas costumo olhar deslumbrado, intrigado a vida a minha volta. Vida dos bichos (principalmente dos bichos humanos) e a vida dessa cidade, que sei que é viva, pois vejo pulsar ininterruptamente seu sangue que é o homem. Em artérias e vasos capilares ela bate e toca seu ritmo forte e acelerado.
Sinto horror ao homem, esse homem que é deus e criados do corpo em que pulsa e dessa selva em que vive, que com tanto gosto chama de civilização e que abriga tanto do que há de mais absurdo, obtuso e surdo da pura barbárie e da selvageria humana.
Megalópole, palco, arena do absurdo e do injusto, do luxo e do desleixo, do lixo, é a face do mundo, do imundo, onde todo dia eu fumo e tusso fumaça de gasolina*.
Me debruço sobre tudo o que vejo, só que não choro,
não odeio a cidade.
Sou seu filho,
filho deste tempo e espaço,
sou Flanerie, fruto da modernidade.
Animal metropolitano, já me esqueci do puro instinto, da caça ou da fruta, da lança ou da luta. Já esqueci mesmo de qualquer sonho bucólico ou de qualquer nostálgica lembrança de um tempo que não vi ou vivi.
Quando vejo, vejo a cidade e os reflexos de si mesma por entre grandes avenidas contando de sua grandeza em seus grandes prédios espelhados, preocupados em omitir outros cantos e outros lados, em esconder o canto dos braços mais cansados e mais mal pagos.
Vejo os fios abraçados às arvores,
vejo o movimento,
distintos momentos, em madrugadas, manhãs e tardes,
às vezes cansadas e às vezes bem vivas, mas sempre lotadas,
transbordam e gritam
ódio
amor
desgraça
sarcasmo
sarro e cachaça.
Ouço a cidade tocar seus ritmos intermináveis Puros e dissonantes mantras.
Enlouquecido e enlouquecedor jazz de decibéis admiravelmente e incessantemente altos.
Sou narciso apaixonado e a metrópole é meu desejo, pois sou narciso e como narciso acho feio o que não é espelho*².
Sou cidade de vidro estilhaçado, mas ainda assim sou cidade
sou qualquer sonho de liberdade todo torto e errado, mas ainda assim sou o que sou.
Sanatório mas sou são, sou menino cheio de malcriação,
de segredos
belezas e desejos,
tristes trópicos,
mentiras
Preguiça
e força nas mãos.
Em segredo sou São Paulo.
* Alceu Valença “Papagaio do futuro”
*² Caetano Veloso “Sampa”

5 Comments:
Achei da Hora, Já tinha lido esse texto. Gosto dessa coisa de hora estar em prosa hora vir em uma estrutura mais de poema, uma coisa mais solta. Bem como é São Pulo mesmo,enquadrado e estilizado , mas muitas vezes aparecendo de forma mais caótica.
do caralho!
foda!
curti... me gusta a liberdade da forma.
o que diria o eu-poético desse texto para o personagem do "Chove ácido na cidade oprimida"?
Hum... integrante novo!!!
Adoro... belo time, este.
Pra ser bem sincera, algumas pequenas partes me incomodam, mas é bobeira minha. Mas outras me causam êxtase... como se pudesse escutar os incessantes decibéis desse jazz admirável... haha! Puro deleite urbano...
um beijo!
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