segunda-feira, julho 30, 2007

Chove ácido na Cidade Oprimida

Eis aí uma experimentação estética.

Este texto foi escrito parcialmente à quatro mãos, duas delas póstumas. Os dois primeiros parágrafos são inteiramente de (melhor) autoria de um tal Bernardo Soares. De resto o texto de minha autoria apóia-se algumas vezes em imagens suas . Bernardo foi escritor e ajudante de guarda livros na biblioteca nacional da também póstuma cidade de Lisboa de 1930. E para aquele leitor mais minucioso, que queria saber exatamente o que foi punhado por quem, deixo no final do texto, uma relação das páginas e poemas usados aqui.


Chove ácido na Cidade Oprimida

“Desde o princípio baço do dia quente e falso nuvens escuras e de contornos mal rotos rondavam a cidade oprimida . Dos lados a que chamamos de barra, sucessivas e torvas, essas nuvens sobreponham-se, e uma antecipação de tragédia estendia-se com elas do indefinido rancor das ruas contra o Sol alterado.
Era meio-dia e já, na saída para o almoço, pesava uma esperança má na atmosfera empalidecida. Farrapos de nuvens esfarrapadas negrejavam da dianteira dela. O céu para os lados do Castelo era limpo mas de um mau azul. Havia Sol mas não apetecia gozá-lo.”
A essa hora todos já sabiam o que estava por vir, e as pequenas pessoas, diminuídas ainda mais em sua coragem, apagadas em preto e branco pela conjuração de todas as nuvens em uma só nuvem -negra, implacável, avançando lentamente em direção à pálida esfera solar- pareciam, bem como os ruídos da cidade, que se abafavam com o esperá-la.
Em ocasiões assim, é mister que todos corram o mais rápido possível para fechar as janelas de seus lares, é importante que, dando tempo, os pais busquem seus filhos nas escolas, e que os transeuntes longe de suas casas, ou mesmo aqueles que não a possuem busquem bom abrigo de paredes sólidas e teto firme. De resto todas as perdas são mínimas.
Aos poucos mas apressadamente as ruas da Cidade Oprimida vão tomando ares de abandono. Ficam-lhe como elemento cênico os objetos às pressas esquecidos; as roupas no varal e os veículos abandonados. A conversação entre os recintos e as ruas sessa abruptamente em taboas de madeiras, trancas fortificadas e rezas quais quer, “Fechado”. As pessoas se encolhem dentro dos prédios, lojas, casas, bondes, escritórios, “Fechado”. Salas escuras e caladas, cabeças silhuetas atentas como animais entocados, o silêncio aterrador. Subliminarmente toca-se a música de uma orquestra de pequenas tensões: o ranger dos dentes, o rasgar lento das unhas na própria pele, o tencionar de um músculo que devota muita força no segurar de um objeto qualquer. O clima é rígido e de uma espectativa tesa. Ah, como é pior o silêncio do que a tragédia que o procede!
Às três horas da tarde falhara já toda luz do Sol, um vento mal cheiroso e corrosivo vem como um sussurro maldito varrer das ruas os velhos jornais e sacolas, vem levar para algum outro canto os chapéus caídos, as notas ficais; vem rolar as bitucas e cavocar as cabeças dos homens, que mesmo abrigados como podem não se furtam ao automático gesto de proteger os narizes e engolir grosso certificando-se que a saliva ainda é insalubre. - Esse é o vento negro- alguém sussurra- É ele quem trás os agentes da peste, esse é o Vento Verde que sopra-se do setentrião. O bafo do Demo.- Alguém sussurra e alguém ouve o que não queria, as pessoas se unem mais, se cobrem mais e rezam mais. Uma pequena garota, abrigada em um restaurante com seu pai, pensa no seu cachorro que à mercê do vento pestilento desenvolverá manchas e bulbos negros. Não há mais pássaros no céu, e de agora até a possibilidade de uma consulta médica, todas as secreções, excreções e desatinos são suspeitos.
Foi quando o Terrível fez-se menos uivante e a rua franzia-se de luz intensa e pálida, que o “negrume baço tremeu, de leste a oeste do mundo, com um estrondo feito de escangalhamentos ecoantes”, um terremoto celeste que sozinho e inaugural sacudiu lustres e almas que se julgavam bem presos aos tetos de sua razão. Com este primeiro estrondo o que pendia terminou de cair e o que era fixo começou a pender. - Há! Hoje vai se fartar de chover!- um comentário assim feito em boa voz e dispensando tanta naturalidade e calma à situação pareceu, aos refugiados do restaurante, um mal gosto de má hora.
E então choveu.
Aconteceu que não aconteceu assim aos poucos, não houve gota primeira que anunciou a vinda das outras que de vagar, adiantadas e atrasadas, vieram chegando até que desabou-se o grosso das nuvens sobre os telhados. Não, o único aviso foi um momento de pura estagnação do mundo: Na duração de um suspiro a moeda que caia da mesa congelou-se no ar; a gota fria que escorria pela nuca deixou-se quietar; sessou-se o Vento Verde; a respiração dos homens; o estalar das madeiras; sessou-se a enfermidade do enfermo, sessou-se todo o mundo por um breve segundo; até mesmo a luz que caminhava estagnou, não havia átomo que se movesse ou molécula que se dividisse naquele momento. E no entanto, por todo o mundo ainda estar no mesmo ritmo ninguém percebeu o que se passou. Perceberam apenas, que de uma hora para outra milhares de centenas de gotas de ácido, todas de uma só vez, caíram grossas , barbaras e famintas... E neste momento o pânico foi geral.
Não cabe aqui descrever em muitas minúcias o terror que se instalou durante os 30 minutos de tempestade sobre a Cidade Oprimida. Cabe dizer apenas que de uma hora para outra todos os tetos do mundo pareceram inseguros de mais, e o som fino e borbulhante do ácido comendo as argamassas, os latões e cimentos da São Paulo Velha só não era pior do que o seu som fervendo a pele vizinha. Isso, porque quando era na própria , não havia som , havia só muita dor. Muita gente gritou tanto que nem sequer lembrou-se de emitir isso em voz , alguém diria depois : que - É por isso que tanta gente fica louca quando que as nuvens se vão-. E ocorreram muitos mais sinistros e desesperos dados à fome do ácido que caia e queimava e que nada de intransponível conhecia, e ao Vento Verde que como outros dizem, sopra-se tão baço e pestilento dos interiores da Terra. Peço desculpas, mas devoto à imaginação do leitor a construção de tão sinistro quadro que foi esta chuva em sua duração. A mim me cabem apenas seus pós:
Uma cunha de luz metálica abriu espaço nos repousos dos corpos humanos, meia luz triste sobre os desfalecidos. Nada se move, nada ousa. Com um sobressalto gelado um ultimo pedregulho de som bateu em toda parte esfacelando-se contra silêncio duro .O som da chuva diminuiu como uma voz de menos peso. Uma nova luz, de um alaranjado rápido de despedida tolda o negrume surdo...tudo é quieto, tudo é silêncio, tudo é segredo. Ah como é pior a ruína do silêncio do que a tragédia que o precede! Mas houve agora uma respiração! entre os escombros esquecidos e mudos houve, sei que houve uma respiração!... será possível ? Talvez! talvez antes que o punho, atrasado, sesse de latejar... Do céu de som trêmulo ecoa súbito duro ponto, como uma despedida zangada, a trovoada que começa a aqui não estar. Tudo é assustado sussurro, e quando o primeiro gemido surge, acompanhado da triste carne-viva-mão que procura a luz, é como que encorajando a manifestação de vida em outros peitos e gargantas. Assim, agora toda a Cidade Velha geme, arde, e chora.
De todo o perímetro da cidade eleva-se uma triste fumaça, ou antes um vapor translúcido. O asfalto das ruas ficará quente muito tempo depois da caída da noite, que neste dia será irônica e excepcionalmente fria. Muitas outras construções mais antigas, simplesmente ruíram e dissolveram-se não deixando se quer um grão de existência. Os auto-móveis com sua lataria contorcida, todos derretidos e disformes lembram as cinzas de um incêndio; alguns fios ainda soltam faíscas serpenteando soltos pelas ruas e o inevitável cheiro de borracha derretida é como a ressaca merecida depois de um grande porre de qualquer álcool vagabundo. Parecia que a Cidade Oprimida havia sido lavada com a única substância e na única quantidade possível para limpar-lhe toda a imundície, mas essa é uma perigosa ilusão.

Mauro R. Meserani

sexta-feira, julho 13, 2007

Ae rapaziada, fotos do aniversário do Bigode em http://www.flickr.com/photos/chegados/