Entulho
Passa um caminhão, é cimento na vida.
E nessa vida de tapumes coloridos e compensados, de chão de terra e de suor na testa, acontece um circo que é meia-luz e que tem gosto de casaco no frio.
Pois se nesse lugar onde reina a tijolação não houvesse um cantinho assim, de descanso, nóis num güentava, né não?
- E você num sabe, Tião do Nepoara, como é que foi aquele dia ali no pasto!
- Eita, só Tião...
- Pois foi ali, seu Tião, na distância de um rancho paraibano, que me provei cabra criado, homem de valor!
- Vixe, ô seu lingüiça, troca o disco - comentou o negrinho Topino, com aquele ar de superioridade. Era o mais jovem dali, também o mais agitado. A história do matuto, repetida sempre, já perdia a graça.
- Muleque... Tu que guarde bem essa língua... Pois como eu contava, gente, eu tava ali sozinho, cara a cara com o bichão, e ele bufando, salivando, doido pra me dar uma carreira daquelas.
E contou a história que todos ali já conheciam. Novamente.
Contou de novo sobre quando encarou de pronto o touro mais bravo da região, depois de ter jogado uma pedrinha na suas ancas. E enfatizou cada detalhe, de como o touro arrancava a terra do chão, de como (mesmo a vários metros de distância) ele podia ver o pêlo da nuca do bicho se eriçando. E se lamentou, com aquele jeito tão distinto, do interior contador de histórias, de ter tacado pedra no bichinho que andava tão quietinho, calado pastando como deve ser.
Lembrou certinho como toda a peãozada se escafedeu e ele parado lá, olhando no olho do bicho sem tremer nem nada.
E falou do dia e da noite inteiras que teve de passar em cima duma árvore, com o bicho lá embaixo chiando e dando cabeçadas, até o apoteótico final, com a heróica corrida pela mata e o touro atrás, ele já sentindo bafo quente e fugindo mais pelo som do galope, pois olhar pra trás era tão ruim quanto fitar nos olhos do Capeta, não, ele não fora burro de fazer isso não. E quando o touro despedaçou inteira uma árvore com o peso do focinho ele bateu o pé no chão, mostrando o barulho.
Contou que quando viu o touro caído, a árvore lhe partindo a cabeçorra bem no meio, os olhos do bicho estavam inteiros vermelhos, com ódio interrompido. E falou como ele triunfou, e do churrasco em que ele convidou a todos, mesmo os medrosos que tinham fugido de início.
Cada um dos pedreiros já havia ouvido aquele épico do sertão diversas vezes, um sujeito mais implicante até conseguiria completar algumas frases antes delas serem proferidas. Mas o entusiasmo do Seu Almir, os olhos brilhando com a cena viva na sua cabeça, a oratória tão bem construída, a levada quase de cordel, cativavam muito bem aqueles olhares cansados. Todos se divertiam em ouvir aquele engraçado narrador, e a situação em volta contribuía para a aceitação despreocupada e o clima de confraria.
Pois, afinal, era um dia especial. O Topino quase fez besteira no começo do dia, derrubando a colher de cimento, pela excitação frente ao começo da noite.
Sempre que terminavam de erguer um andar inteiro, a laje nova prontinha, ganhavam um regalo do engenheiro. Ele ia até lá, vistoriava tudo tudo, e se lhe agradasse o trabalho eles eram dispensados mais cedo e podiam usar aquele cantinho para uma pequena comemoração. Eles se divertiam com as palavras engraçadas que o sujeito de oclinhos e camisa polo empapada de suor soltava, "formidável!", "esplêndido!" e coisas assim que fazem coceguinha na língua e são de uma pompa tão maleta-terno-e-gravata que era difícil segurar os risinhos.
Alguém abriu uma lata de ervilhas, e num nada de tempo brilharam as colheres usadas na marmita de manhã.
- Uia! Eu trouxe a branquinha...
E dessa forma foi amanhecendo a noite, girando seus brilhos devagar. No cantinho de uma obra, seis corpos estavam juntos ao redor de uma fogueirinha de nada, mais fonte de luz que de calor, e acontecia uma alegria bonita.
Nenhum deles se lembrava de como começaram a fazer isso, mas logo foi uma coisa que virou motivo de ansiedade. Pois ninguém se lembra da data, mas o que acontece é que essa comemoração virou um encontro de amigos, e ninguém se lembra porque, mas amigos juntos sempre contam histórias.
E foi assim que toda vez que se termina um andar nessa obra, a noite se aquece em volta de uma fogueirinha, e pára seu eterno girar para ouvir contos que ninguém nunca se interessou em registrar. São histórias vividas, ouvidas, de hoje, de ontem, do cimento, de quitutes, que só uma memória de rabo-de-olho nas cantigas de mãínha resgatam, inventadas, coloridas, maçantes, repetidas, impressionantes.
E houve tempo em que se cantou baixinho um samba antigo, tempo de lágrimas escondidas, e de longas gargalhadas. E aquele porrezinho gostoso, iluminando com a cor do fogo as mais incríveis histórias foi afagando a cabeça de cada um, num cafuné confortável de noite em claro.
Seu Almir acabou, e a maior satisfação que teve naquela semana foi guardar o sorriso sincero que preenchia aquelas bocas meio intermitentes de dentes. O Topino levantou limpando a calça da terra, e com um sorriso maroto começou:
- Ah, rapaz! Tenho uma coisinha assim aqui pra confessar... lembra da Kátia?
Todos se entreolharam, risonhos, se alegrando com o cara do garoto.
E se seguiu aquela narrativa de como ele finalmente conseguiu levar pra cama a garota mais linda do seu bairro. E foi além, com uma vergonha forjada muito mal fingida, deu detalhes da dita noite, mesclando à realidade uns tons mais picantes do que a verdade, e acrescentando uma parte da história erótica da revistinha que ele comprou na banca.
Satisfeito em tornar pública sua proeza sexual, Topino virou pro Tião e complacente:
- E aí, Tião, deu certo desta vez?
- Foi não, guri.
Ele baixou um pouco a cabeça, e deixou o Topino sem graça.
- Relaxa, parceiro, toma um trago e relaxa. Pois se não for hoje, vai ser amanhã!
O Tião era baiano vindo de Nepoara. Deu-se que um dia, na sua vez de contar uma história ele lembrou de um sonho danado de bonito e contou. No sonho ele era um garotinho assim como ele tinha sido, e vinha correndo de muito muito muito longe embaixo de um sol muito vermelho, cansado, com sede assim de grudar a boca, e de repente, chegava no mar. Um mar lindo. Verde e cheiroso, gostoso de tomar. E ele estava com tanta sede que tomava e tomava água, até que não sobrou nada a não ser um brilhinho na areia. Ele chegou perto e era uma linda sereia, e o menino casou com ela. E choveu e voltou o mar, onde ele viveu nadando por muito tempo.
Desse dia em diante, o Tião resolveu que só contava os seus sonhos. E via os olhos de muitos marmanjos encantados com aquelas coisas, querendo mesmo viver aquilo.
Mas um dia, o filho do Tião morreu de diarréia. E ele nunca mais sonhou.
Desde então, ele era só um espectador flácido, à procura de seus sonhos. Os colegas davam uma força.
E desses colegas, um dos que mais se entristecia com o fato era um tal de Antônio. E como era! O Antônio só contava a história de como ele arranjou uma amante. E todos ali viraram cúmplices da história de um casamento enfadonho e de uma aventura incrível. Cada vez que levantava na roda, o Antônio contava mais um capítulo de uma novela que ele tinha vergonha de assumir em outro lugar.
E outros do grupo às vezes levantavam e ficavam com um nó tão grande na garganta que nem prosseguiam com a história. Por outro lado, a caninha geralmente produzia muitas fábulas felizes e cômicas, que terminavam em abraços e tingiam com a prata da risada um grupo de colegas.
E assim se foi tecendo, de tempos em tempos, um momento especial na vida de seis pedreiros. Num canto de uma obra de uma cidade em constante reforma, grande demais para prestar atenção em mais seis peões.
Para um canto de uma obra, de tempos em tempos, voavam o Amor, a Memória, o Deleite, o Riso, as Cores e os Suspiros junto com seu rei, o Devaneio, e lá eles se sentavam ao redor de uma fogueirinha, e juntos paravam para ouvir histórias de seis grãozinhos.
Pois se não fosse ali, onde esses seis grãozinhos iriam atrair esses seres junto com seu ilustre monarca?
No bate-bate de um cotidiano oco, o suor preenchia o vazio.
E de tempos em tempos, no cantinho de uma obra, por um breve momento seis pedreiros galgavam o edifício de suas próprias vidas.
* Texto enviado para o concurso Inventário em 2005
