Bom , aí vai um texto que gostaria de ter trabalhado mais antes de postar mas como isso aqui é uma oficina não vejo mal em postá-lo assim mesmo. É uma “continuação” do texto que postei lá em baixo “chove ácido na cidade oprimida”.
Sob o doce cheiro da carne queimada
O cheiro adocicado e sonífero de carne queimada ainda vasa quente para dentro do quarto e lá se amalgama com o odor moribundo do suor ter-são que, apesar de frio, se evapora abafado das cobertas. Distante e abstrato toca um telefone onírico e um nome flutua solto em algum lugar- Burgones-... Aos poucos um formigamento , a lembrança de que se tem corpo , e longe, em algum sonho que se esvai, toca um telefone. Alguns segundos de pura confusão mental – mas o que...- a cabeça . Antes de qualquer razão a cabeça se faz sentir só e ardente, a cabeça e um eco inconsciente, um telefone ... Um suspiro engasgado, um gemido , um flash, a consciência... Em pucos segundos tudo volta a fazer sentido- está deitado e dormiu, é isso- . As pálpebras não se abrem, mas a realidade agora é mais próxima , sobre o criado mudo o telefone azucrina bem na orelha - É o filha da puta do Burgones- .
Há uma dor de cabeça latejando a têmpora de o Torres. Latejando. Latejando .Latejando. Minha têmpora latejando. Além disso fotofobia em demasia, sentou-se na cama nu e suado, o mau-estar lhe era tão pesado que o sentia como um ente fora de si. Aos poucos, como a recuperação de uma memória perdida a imagem do quarto se foi revelando: nada estava no lugar, absolutamente nada, e um engolir amargo de desentendimento do mundo se transforma em uma grande ânsia de vômito; pelo corpo assoma-se um arrepio doente e algo se dissolve ruidoso no estômago. Tentou se levantar mas voltou à cama, descobriu-se fraco e distante; e no mais, da sensação física à compreensão do mundo, se sentiu como em um delírio de febre tropical,seria incapaz até mesmo de balbuciar uma baba. Sentado percebeu que a vida era mais fácil, aos poucos começou a sentir-se novamente encarnado em si. Ainda assim suor, ainda assim calor, ainda assim aquele maldito telefone tocando, latejando. Latejando. Latejando. Passou a mão sobre o rosto, a cabeça, será que o Burgunes não se toca?
Ouviu , ou imaginou ouvir lá de fora, o som das coisas crepitando seu despertar, talvez fosse dentro de si, merda agora estou crepitando,isso não chegou a ser um pensamento completo . Podia imaginar a cena: todo mundo acordando do desastre de si e do mundo. Lembrava-se de uma tentação irresistível de se deixar quietar. O telefone. Uma vontade de se sentar. O telefone. Deitar. O telefone. Aquela dormência entorpecente e melada. O telefone. .O telefone . Mas o que tinha acontecido mesmo?. O telefone. Como tinha sido?. O telefone . Lembrava que estava na janela. O telefone. E aí aquele cheiro quente e doce, aquela preguiça de sustentar a vida. O telefone. Aquela moleza que entrava pelo nariz e logo se espalhava contagiante e relaxante por todos os músculos. O telefone .Aquela vontade de se entregar, os braços moles, as pernas fracas. O telefone. Aquele terror por estar tão seduzido a fechar os olhos e dormir . O telefone. Aquele cheiro sonífero que era de... O telefone. De que era o cheiro mesmo?. O telefone. O telefone. O telefone - Mas que merda Burgones!- :
- Alô!- A mão doeu súbita e dura ao segurar o gancho.
- Porra Torres! Cadê você?! Sabe o que acabou de acontecer ?
O Torres abriu as persianas com os dedos, não lembrava bem dos fatos, a luz lhe doeu dos olhos à mente como uma agulhada grossa e bruta. Ânsia de vomito, a cabeça. Sobre o criado mudo o rádio-relógio tinha apagado.
- Que horas são Burgones?
- Acabou de chover ácido caralho! ácido Torres!.Porra Torres, toma uma ducha e vai cobrir isso, quero você lá antes que qualquer outro repórter. Vai nas favelas Torres, lá deve estar pior. Se já viu aí fora Torres? coisa de guerra, falando em guerra tô mandando o Sadan pra ir cobrir com você, ele já tá indo pra aí Torres, porra vai dar matéria, coisa de guerra, coisa de maluco. Torres? Torres!
Cacete. Tinha chovido ácido. Essa declaração lhe subira da espinha à consciência fria e precisa como a lembrança dos fatos: Tinha acabado de jogar pela janela a ultima bituca, ficou injuriado que vinha chuva brava por aí e não dava tempo de ir atrás de outro maço. Dane-se, pega-se chuva, vestiu o jaco , apanhou a carteira; mas aí deu uma última olhada e o vento estava entortando postes, resolveu ficar. Depois veio um vento diferente, azedo, ardente, correu para fechar a janela, e alí percebeu que a coisa era brava e que é melhor eu ir fechar a do banheiro também que a cobra vai fumar e amanhã vai ter trabalho. Choveu, e com certa incredulidade ele viu que as plantas dos vasos da vizinha paraplégica morriam como machê, e depois viu que tinha poste esburacando e tinta derretendo, que porra de chuva é essa ? Ficou um pouco temeroso. Rapaz, o trem tá feio, isso aí vai durar a noite toda - tomou um copo d'água e umas cinco boletas , depois é que foi se tocar de que não devia ter feito isso, agora não sabia mais o que era real e o que era a droga, não sabia se os gritos que pareciam vir das casas próximas, e a gente que viu sair correndo e acabar estirada esfumaçando n meio rua eram coisa da sua cabeça ou não- Cara, que merda , isso não pode ser real.-verificou o que tinha no copo,e era só água mesmo.-Malditas boletas – cinco fora um exagero.
Agora, enquanto o Burgones falava de como queria depoimentos de gente que perdeu tudo, de como as fotos tem que ter sangue ein Torres, ou talvez uma criança, porra Torres cata o depoimento de uma criança, ou de uma mãe, porra mãe é bom, porra Torres, uma mãe que perdeu os filhos, isso. Porra Torres, crianças em escombros e mães desesperadas tentado achá-los, porra Torres... Enquanto ele tagarelava, o jornalista admirava a palma das mãos e se lembrava de mais: Se lembrava que viu, ou achou que viu umas goteiras no teto, mas morava no terceiro andar de um prédio de vinte. Não devia ter tomado essa merda, aparou as gostas com as mãos, eram frescas, tinham um ardor gostoso como pasta de dentes. Se lembrava de brincar com elas, de espalhá-las nas mãos como um óleo de menta e de depois providenciar uma vasilha. Lá estavam as mãos em carne viva, expostas quase até o osso mas estancadas e cauterizadas como um machucado antigo. Lá estava também a vasilha, cheia até aqui de ácido. - Sorte- o ácido chegara fraco ao seu apartamento.
- Que tal Torres? “Mãe procura filho nos escombros” essa vende ein ? - Sorte nada, tivera é um azar do cão, ia ser a matéria mais escrota que já cobrira, e que ressaca, a cabeça. - Ein Torres? Uma foto da mãe e uma pilha de tijolos e arames tortos. Se ta aí porra ? Torres!
Mas que coisa, tinha mesmo chovido ácido? não pôde conter um sorriso trágico, ácido?- Torres? Porra Torres se taí?- E com a voz rouca e séria:
- Acho fraco, mães procurando filhos... Fica tranqüilo Burgones seu puto, eu vou te dar a melhor matéria do Brasil.
Desligou. Foi ao banheiro gorfar e enquanto vomitava com a cara na latrina ruminava a sorte que tinha de ser repórter da coluna mais absurda do jornal mais sensacionalista do país. Golfou as até as tripas.
Pensou em pegar o elevador, mas verificou pelas grades da porta que os cabos tinham arrebentado. Lógico, a cidade inteira devia estar um caos, sem água, sem luz, sem transporte. Pior, a água devia estar envenenada , os reservatórios perigosamente acidificados, mas eu bebi água hoje, será que vou morrer ? mais uma vez o sorriso trágico. “Reservatórios envenenados”, isso sim dava matéria Burgones. Enquanto descia as escadas se lembrou de mais: Se lembrou de si mesmo de cueca no meio da sala, molhava as mãos nas goteiras e se untava com elas úmidas de ácido como em um ritual maluco- Malditas boletas do inferno-, isso explicava os vergões e assaduras pelo corpo. Se lembrava de si como um espectador de fora, como em um sonho; de cueca à meia luz verde (verde?) da tempestade se lambuzando lenta e jocosamente como um índio que se pinta para a guerra. Mas que merda eu podia ter me matado. Se lembrava dos gemidos estranhos e primitivos que fazia enquanto se banhava e contorcia, aquela sensação de ardência purificadora, - eu podia ter virado uma espécie de maluco desfigurado droga – sorriu. Depois, depois não lembrava mais.
No hall sentado no ninho de ratos que o zelador chamava de sofá-de-espera estava Sadan com a Canon no pescoço. De voz rouca e calma, como se estivesse sempre de ressaca, o Torres cumprimentou :
- E ai... Mas que manhã...
Sadan tinha vindo para o Brasil antes mesmo de o Torres aprender a limpar a bunda, o cara tinha anos de jornal, fotógrafo de guerra e as porra. O pior é que o nome do figura era esse mesmo Sadan.
- Nem me fale. Hoje vai ser um dia daqueles, você não viu como estão as ruas aí fora, chegar do jornal até aqui foi praticamente uma missão. Que ouve com as mãos?
Ignorando a pergunta o Torres sacudiu vários sim's reflexivos com a cabeça:
- Imagino... Imagino...- E seu cérebro solto chacoalhou lá dentro.
Lá fora o dia era claro mas de um Sol frio e um pouco doloroso, a luz era incômoda e inevitável, aspirá-la doía as narinas como um soro mal . Somente quando se abrigou dentro do velho carro da reportagem foi que o Torres de fato conseguiu abrir os olhos.
- Seu bairro aqui até que ficou bem viu... Tirando esses escombros aí no chão os carros e os muros tá tudo em pé. Você precisava ver lá pros lados do Jornal. O Informante disse que na zona Leste tá o caos , não tá chegando nem ambulância pra tirar os corpos da rua, eles estão sem água, sem luz sem telefone. Você tava com água e telefone aí ?
- Sim. Eu estava com telefone.
- Se acha que vale a pena ir até lá?
A luz, a cabeça, aquele cheiro doce e quente que ainda pairava na rua, o vapor que se erguia do asfalto , dos corpos , dos escombros. A cabeça ia explodir, apoiou a testa no painel. Mas que merda de dia, que enjôo, a cabeça. O pior de tudo era o inesperado silêncio, a mudez trágica do caos. Antes houvesse barulho , sirenes e gritos e o Torres se sentiria mais à vontade, saberia aonde ir e o que fazer. A música do pânico sempre lhe injetava nas veias uma adrenalina louca, uma disposição sem igual para racionar e investigar e entrevistar como nenhum repórter no mundo sabia fazer. Era esse seu segredo, era por isso que sabia vender tanto , não era imaginação nem capacidade de comunicação à massa, não era a exclusividade de notícias e nem uma eximia habilidade na escrita. Não, era prazer, o mais puro e completo prazer, o simples sabor de lucides e avidez que o barulho do caos e a confusão do desastre lhe provocavam , era nos momentos de tragédias espetaculares que este homem vivia. Mas tal fora a potência da tempestade que nem mesmo as sirenes que sempre saem sonoras e velozes de seus postos para auxiliar os feridos, nem mesmo elas figuravam na cena.
A essa altura o Torres já havia erguido a cabeça e perdido seu olhar para bem além dos vidros do carro, e seu parceiro a julgar que ele observava as ruas :
- Não se preocupe já tirei foto dessa galera...
Só aí foi que viu que tinha gente viva na rua. Pálidos e distantes como fantasmas de um pós guerra essas almas perambulavam indiferentes entre os escombros de uma noite mal dormida. Um pouco indignado e muito assustado com a serenidade espectral desses transeuntes o Torres, tremulo, tentou se acalmar - Ainda não entenderam o que aconteceu, não se lembram que choveu ácido, não se lembram nem de si, quando lembrarem vai ser melhor, vai começar a choradeira e agritaria, aí tudo vai ficar bem ...-:
- Já -já teremos barulho.
E olhar para aquelas pessoas era angustiante. Cadavéricos, lembravam um asilo que certa vez o Torres visitou , onde os velhos mal tratados caminhavam sem luz de esperança e nem calor de vida pelos jardins, só que aqui não há jardim algum. -Deixa só um deles encontrar um morto, aí um vai gritar e logo todos vão começar a gorfar e chorar, vai ser o caos-. Mas isso não acontecia. O Santana velho parado, as pessoas caminhando em silêncio que não era de luto era de amnésia, o Sadan com câmera na mão , tremendo um pouco, o silêncio aterrador:
- É um pouco assustador chegar perto deles... As fotos podem ter saído tremidas.
Um pouco assustador... O Torres tremia, que coisa angustiante essa gente caminhando como brumas de pessoas, todos vazios de reação à qualquer coisa,não se sentia bem, a velha perdida em sua languida camisola branca-transparente, o homem gordo e nu, suado e arranhado andando vazio : - alguém acorde esses putos!-.Aquele silêncio, aquele vagar lento, distante um flutuar de consciência , sentiu seus cabelos se arrepiarem num mau presságio de pânico gelado , um vazio incomum no pulmão, faltava-lhe ar, gelava-lhe o respirar. Se lembrou de quando era pequeno e tinha medo do escuro, seu pai estava no quarto ao lado mas o terror de gritar pelo pai e se ouvir gritando era ainda pior do que o medo de ficar ali sozinho, evocar voz alta o suficiente irromper a mudez negra da noite, e acordar o pai a distância ouvir-se a si mesmo em pânico exigia uma coragem que não tinha. Era igual , queria gritar porque aquele baile era pior do que tudo, a moça em trapos esbarrando inconsciente nos escombros, a cabeça , a tontura, a vontade de explodir , a covardia repentina e paralisadora .Não tinha coragem, lá estava ele encolhido e amedrontado de baixo do edredon suando como o menino na cama . Até se via saindo pela rua e gritando a todos que choveu ácido caralho, chorem seus malditos que todo mundo perdeu tudo , é Deus ou a Natureza que veio nos reduzir a pó, clamem , gritem! Senhoras e senhores se atirem no chão e peçam perdão aos céus, todos vocês vão morrer , entrem em pânico, chorem a morte trágica e dolorida de sues entes queridos ! Façam barulho , façam barulho ! Pelo amor de Deus, alguma coisa acorde essas pessoas! alguma coisa... essas pessoas...pai.... o escuro A ânsia, a cabeça, o irremediável pomo de desespero na garganta.
Olhando pro seu companheiro com a testa apoiada no painel, suando e tremendo tanto, Sadan se admirou mas não se surpreendeu, já tinha visto coisa pior. O coitado está sempre bem acostumado com o caos completo e o drama do circo pegando fogo, mas hoje o terror é catatônico e nada é pior do que quando existe calma suficiente para ouvirmos nossos próprios temeres . Melhor é ajudar o coitado antes que ele entre em colapso. Seco e profissional , com a voz em direção ao painel do carro para que o amigo não se constrangesse descobrindo ser observado e nem desconfiasse que a medida era por seu bem e não para reportagem :
- Ô Torres, acho que o hospital vai dar matéria, ein, vamos pra lá.
Não houve resposta, nem sequer sinal de que tinha sido ouvido, a respiração de o Torres era cada vez mais bufante e atormentada,o homem estava vermelho, afundado no banco, perdido em umd espero longe dalí. E o Torres, as mãos enfaixadas arrancando os cabelos, a visão turvando, aquelas pessoas caminhando com o olhar perdido e vidrado, e tudo rodando de medo, puro medo .
- Sabe, acho que lá vai estar uma verdadeira confusão. Nas clínicas.
E então o amigo levantou a cabeça rápido e automático, a face estava completamente arranhada , agora tinha luz nos olhos:
- Você acha mesmo? É possível não?
- Ah ,mas sem dúvida. Sirenes , e gemidos , e gritos , e gente da imprensa forçando a barra, e ambulâncias , e por favor doutor me ajuda! e calma senhora estamos fazendo o possível ! Maria traz o soro aqui rápido ! e quelas máquinas que apitam e as bombas de pressão se enchendo e esvaziando e os sai da frente temos uma emergência! , rápido para a sala de operação! , e queles filhas da puta da Folha de São Paulo entrevistando um monte de médico, e o tradicional olá somos repórters da... escuta qui não tenho tempo, você não vê a situação?, alguém tire esse homem daqui !, e os seguranças apertando o braço, e o ó meu Deus ela desmaiou . Ah... com certeza lá vai estar o pandemôinio.
- Porra Sadan, lá vai estar mau! Tá com filme nessa merda? Vamo pra lá agora ! Arranca daqui...
Sadan sorriu e com prazer girou a chave, lá na frente um dos espectros esquecidos caiu seco no chão e com um resmungar duro o Santana-lata-velha arrancou direto para as Clínicas. A cabeça.
Mauro R. Meserani